quinta-feira, 21 de março de 2013

Deus Le Volt!




A hierarquia, a propriedade privada, a economia, a política são formas de garantir poder ao indivíduo. É da natureza humana, principalmente agora nesses tempos capitalistas e globalizados, o desejo de possuir: objetos, relações, sentimentos, forças das mais diversas definições. A antropologia nos mostra como, nas mais diversas situações de aglomeração de pessoas, a vontade inerente ao homem de possuir sentidos é forte e como esta é força motriz para o funcionamento das comunidades. O ser é característico, e o ser humano tem a consciência do valor social que as características possuem. Vale lembrar que a consciência valorativa é mutável, portanto, cada época da história e pré-história humana possui todo um pacote de sentidos sociais que devem ser levados em consideração para a boa compreensão da função que as instituições sociais exercem no período dado. E tendo essa consciência do valor possuído pelas características, a pessoa sente a necessidade de possuir o conjunto de características mais bem-vistas ou mais consideradas em seu meio. É demandado do comerciante um nível de administração suficiente para gerir seu negócio, do chefe do morro é esperada certa lealdade e colhões para manter seu domínio na favela. E estes profissionais têm a vocação e o incentivo para alcançar as características que são atribuídas aos seus respectivos ofícios: ao militante, lealdade à causa, ao comerciante, a administração, ao médico, a habilidade de tratamento de enfermidades. Os exemplos se estendem a imaginação.

O ser humano também possui outra habilidade que os estudiosos e entusiastas das ciências biológicas gostam de chamar de instinto de autopreservação. E para se auto preservar o homem primitivo e seus familiares se juntaram a outro homem primitivo e seus familiares e assim por diante, dando início ao homem tribal. E para evitar crítica de Alda Judith Alves à desnecessária análise arqueológica, digo que esse instinto levou a sociedade a essa série de relações e ações que fazem a coisa social acontecer. Para viver, o ser humano precisa do outro. Até pelo fato do ser humano ser o animal que mais causa a morte do ser humano. É preciso ter garantias que uma pessoa não mate a outra. É preciso que algo faça o homem ver que, apesar de um indivíduo ser capaz de se proteger e prover quase todas as suas necessidades sozinho, em grupo é mais vantajoso.

O cristianismo, assim como outras religiões, viu essa situação explicitada acima como sagrada. Vou tratar especificamente do cristianismo por esse texto ser, de fato, uma análise da situação da Igreja cristã. A propósito, Deus Le Volt! (algo como “Deus quis assim”), é parte do discurso que iniciou as Cruzadas, uma das maiores atrocidades humanas que se tem notícia. Voltando ao raciocínio, o cristianismo elevou ao sagrado a vocação, a necessidade interna, do agrupamento entre homens. Como esse agrupamento se dá? Isso depende dos valores regionais e típicos da época em que estes acontecem. Os Dez Mandamentos são um exemplo escrachado desse upgrade dado às leis de convivência pré-estabelecidas que garantem o bom funcionamento da vida em comunidade. Eles são leis de convivência social baseadas no amor incondicional de uma pessoa à outra.

A cultura tem como pilar essencial a educação. Sem ela, cultura não seria o que é por definição. O aprendizado das leis de Cristo, em sua época feito através de parlatórios e oratórias, com o tempo se tornou impraticável. O crescimento do rebanho de Deus demandou espaços específicos para o culto. A partir daí o conceito de Igreja, dado na Bíblia mais ou menos como “onde dois ou mais se encontram em Meu (Jesus e/ou Deus e/ou Espírito Santo) nome”, se confundiu com uma definição de lugar onde os rituais cristãos são realizados. Não questiono aqui a necessidade de espaços capazes de abrigar todos os crentes de maneira que estes possam praticar sua crença do jeito que a tradição manda. O que questiono é essa distorção causada pelo raciocínio causal desprovido de embasamento de saberes da doutrina cristã. A Igreja foi, com o tempo, tomando características não advindas das Escrituras, se tornando uma instituição cada vez mais política e burocratizada, como é visto na história entre a criação da Igreja Católica até os dias atuais.

Ninguém é perfeito nesse mundo. Todos nós temos ideais de conduta, mas somos tanta coisa ao mesmo tempo – marxista, empreiteiro, namorado, filho, mexicano, vogal – que acabamos de um modo ou de outro, saindo à regra do padrão idealizado do que somos em determinado momento. Acabamos por confundir coisas que somos com lugares em que deveríamos ser outras coisas. Futebol é bastante similar à guerra, entretanto, não é aceitável jogadores usando de violência ganhar a partida. Já na guerra, o soldado é obrigado e incentivado a ser violento contra o inimigo. Habilidade é bônus aqui. O objetivo é matar muito e matar rápido. No futebol, é golear.

Devido a cargos que ocupei ao longo da minha vida, vi a semelhança que a Igreja, lugar onde os rituais cristãos são realizados, possui com a instituição de cunho político. Assim, como um Tribunal, a Igreja possui hierarquias e departamentos com tarefas definidas, devidamente planejadas e que seguem um plano político estabelecido pelo órgão superior. Assim como no Senado, existem forças políticas na Igreja que brigam entre si pelo monopólio do uso do poder atribuído aos cargos ou postos. O Pastor, o Presidente da comunidade, o Líder da Banda são figuras com diferentes alcances políticos, mas todos estes têm duas características em comum: poder e status. São status diferentes em níveis e poderes distintos em significados e níveis, mas todos possuem tais características, que trabalham em seus determinados espaços de atuação, partilhando de um mesmo propósito: guiar a comunidade aos moldes da doutrina cristã.

Agora, mais do nunca nesse texto, irei me atribuir do texto Política Como Vocação, de Max Weber, para explicar o erro que é a mistura de Comunhão em Cristo e política. A política é esse jogo de poder entre as pessoas políticas. Poder é algo bastante significativo e desejado pela sociedade, portanto, relembrando a necessidade humana de se colecionar características bem-valorizadas aos determinados papeis sociais exercidos por cada membro da coisa social, é esperado que as pessoas almejem poder. E, visto a similaridade entre Igreja e instituição política, as chances da aplicabilidade do raciocínio político na Casa de Deus são altas. Altíssimas, se José Dias me permite o uso de superlativo! E é isso que vemos atualmente. As padarias e mercados são e sempre serão lucro certo, mas se eles estão falindo e dando lugar a igrejas, é porque esse “negócio” é bastante rentável também. Podemos ver nos meios de comunicação a dimensão que a instituição cristã tomou. Camisas, bíblias, adesivos, e os mais diversos e inusitados produtos são comercializados com o pretexto de pregação da Palavra. Hoje não podemos mais desligar o político do econômico um do outro, como não podemos desligar nível financeiro e nível educacional, por exemplo. Essas variáveis são causais entre si e devem ser analisadas em conjunto. A Igreja a muito deixou de ser um lugar onde praticam rituais cristãos. Hoje, a Igreja é uma empresa. Ela pode falir, pode abrir uma nova filial no Brasil, gera lucro e prejuízo além do âmbito político-econômico. E, além disso tudo, é um lugar onde são praticados rituais cristãos. Aqueles que buscam o caminho de Deus ou se perdem no jogo de poder valendo os meios e status necessários para fazer Sua vontade, ou abandonam a Igreja, enojados com o rumo que toda a instituição tomou.

Não julgo aqueles que são políticos dentro da Igreja, mas sim lhes advirto: vossos motivos não são cristãos. A política e o Cristianismo querem coisas diferentes: um, deseja o máximo de poder possível, o status mais importante, tem em seu espírito a ambição de possuir força capaz de fazer o que lhe for possível fazer, como achar devido; outro deseja apenas servir ao Senhor e, por mais que lhe sejam atribuídos as mais diversas importâncias, não se interessa por elas, sendo somente sua preocupação estar dentro dos ensinamentos do Filho do Homem. Mas sem extremismos. É possível achar equilíbrio entre essas potências intrínsecas ao homem religioso. Não vejo exemplo melhor que a existência dos cargos de Pastor e Presidente da Comunidade vista na Igreja Luterana. Ao Pastor cabe direcionar seu rebanho de acordo com a vontade de Deus. Cabe a ele, sendo autoridade nos ensinamentos cristãos dentro de determinada comunidade, ensinar como se devem trabalhar os diversos âmbitos da interação social dentro dos limites do Cristianismo. Já ao Presidente, cabe administrar a comunidade. Viabilizar de modos juridicamente e economicamente legais as práticas cristãs. Termino o texto como comecei este último parágrafo: Não julgo aqueles que são políticos dentro da Igreja, mas lhes advirto: vossos motivos não são cristãos. A reflexão e a oração são ferramentas poderosíssimas para a resolução de problemas de conduta moral. Cabe ao indivíduo político e religioso usa-las para que se descubra sua verdadeira vocação.

Precisava tirar a indignação da cabeça.

Um comentário:

  1. Muito bom o texto. É bom ver esse teu lado sociólogo (:

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