sábado, 30 de outubro de 2021

Você Acredita em Mágica?


    


 Todos nós acreditamos em algo. Deuses, o Axé, o universo -- todos estes e muitos outros são objetos de nossas súplicas e graça. Não sou um cara muito religioso ou espirituoso, mais pela ignorância do que saber com certeza de que sou ou não sou algo. Mas não me iludo, não existe não crer. Todos nós cremos em algo e vivemos em prol dessa crença.

Uma das coisas em que acredito é em magia.

    Ok, podem rir. Até porque com certeza estamos falando de coisas diferentes. Quando falo em mágica, na cabeça de todos nós, minha inclusive, vem Harry Potter, vem Gandalf, ou sei lá o que é mágico na cabeça das pessoas hoje em dia. Quando digo que acredito em magia, tomo um conceito muito mais antigo e até mesmo broxante pra quem se encanta com a expectativa de se aprender uma nova teoria da magia. Sou fã de um velho barbudo, morador da Jerusalém do condado de Northamptonshire, Northampton. Ele mesmo, O Escritor Original:

Alan Moore.

    Alan Moore, ao contrário de mim, acredita na e pratica a magia. Fez disso seu ofício e é um dos magos mais poderosos da atualidade. Como ele relata em seu The Mindscape of Alan Moore: "Magia, em sua forma primordial, era de costume referenciada como A arte. Acredito que isso é completamente literal; que magia é arte e que arte, não importa a forma que tome, é magia. Arte é, como a magia, a ciência de manipular símbolos, palavras e imagens para alcançar mudanças de percepção, de consciência." Ele segue explicando: "Um grimório é só um jeito chique de falar gramática. Na verdade, conjurar um feitiço é somente manipular palavras para alterar a consciência das pessoas. Um artista, ou escritor, é a coisa mais próxima que temos no mundo contemporâneo de um xamã."

    O que Moore quer dizer com essa ideia de magia é que as palavras tem poder. E me diz se isso não faz o maior sentido? Um discurso que te inspira a seguir em frente com muito mais ânimo nada mais é do que um encantamento de força de vontade. Essa caralhada de fake news nada mais é do que uma conjuração de área para prender o povo numa ilusão. Palavras carregam muito mais poder do que podemos imaginar a princípio.

E é por isso que eu levo as palavras muito a sério.

    Pode ser alguma disfunção psicossocial também, nunca saberemos sem investigar. Mas desde que passei a acreditar em magia, minha relação com a palavra dita mudou completamente. Quando digo uma coisa, não importa o que foi dito, pra mim, em um nível espiritual, uma magia foi conjurada. E tenho vivido assim desde então. Infelizmente ou não, acabo transferindo isso para as pessoas ao meu redor também. Palavras são ditas à alguém. Com quem você tá falando? O que você tá dizendo? Palavras são ditas com intenção. Qual será a intenção, então? Convido ao leitor que reflita: você pensa nas palavras que você diz? Nas magias que constantemente conjura? Ou você está somente soltando bolas de fogo a torto e a direito como se a palavra não fosse um artifício feito para ser lido? Como se um feitiço não fosse uma ação que parte do mago para seu alvo? Palavras são poderosíssimas e são capazes de mudar o mundo.

São capazes de mudar você.

        Palavras são magias, encantamentos, feitiços que mudam e distorcem o que as pessoas percebem, pensam, esperam. Desde então tenho levado palavras muito a sério. E é claro que não é sempre que sigo isso. Mas sigo cada vez mais. E nessa crença, acho o propósito que busco para continuar em frente. Realmente não estava esperando que este texto fosse uma chamada para a consciência, para o momento presente. Mas agora ele meio que é, né? Eu mesmo queria que este texto fosse uma bola de fogo, como o ser de vingança que meu ímpeto gosta de ser. Mas da mesma forma que existem palavras que precisam ser ditas

Há também feitiços que não valem a pena encantar.


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Mais uma vez agradeço por terem lido até aqui por favor comentem, se quiserem. FALOU!


segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Sobre As Situações Onde Todos Perdem


    



    Se você, assim como eu, tem um interesse particular em resoluções de conflitos, já deve ter ouvido -- provavelmente devido às séries norte-americanas que constantemente usam deste artifício para plots de sitcoms -- das famosas "win-win situations", ou situações em que todos ganham. Obviamente, ela busca solucionar uma questão de forma em que todos recebam algo positivo ou favorável. Assim como Carole Pateman se utilizou d'O Contrato Social para desenvolver a brilhante ideia d'O Contrato Sexual, venho com uma versão mais pobre e nada original da ideia propor uma conversa sobre as "lose-lose situations", ou as situações onde todos perdem.


    Como exatamente elas funcionam: É simples, ninguém ganha.

Humor.

    Para elucidar melhor, uma situação: Imagine que você está chateado com um amigo, ele anda distante, você sente falta dele, ele não parece ter tempo para você. Talvez o seu bom julgamento o diga para conversar com ele, mesmo que vocês não possam se encontrar. Talvez compartilhar um meme ou post, quem sabe entender um pouco da vida dele antes de dizer o que você gostaria que ele soubesse. Aqui temos bons fundamentos para as situações que alguém ganha, pelo menos.

Mas não são dessas situações que estamos falando aqui, você tem vários youtubers para isso.

    Estamos aqui para as situações em que todos perdem. Você não gosta de se sentir negligenciado pelo seu amigo, não busca conversar com ele por se sentir desgostoso com a situação toda. Também escolhe não desabafar com alguém, ou trazer a discussão para uma terapia -- é ótimo trabalhar questões que temos com as pessoas na terapia, sabia? -- ou até para alguém que você pode contar nessas horas para te aconselhar. Você não está pensando muito bem nas consequências, afinal, seu julgamento está nublado pela raiva que você sente. Cê escolhe explodir na internet, com indiretinha no Instagram, Twitter, TikTok, sei lá. Seu amigo, embora distante de você, fareja quando o assunto é com ele rapidinho, e não gostou de tomar um sucker punch enquanto lê uns tweets na pausa para o café. O que pode ser ele desabafando sobre outra amizade, um crush ou trabalho passa a ser sobre você, que já tá virado de ódio. Você, do alto do seu cavalo, dono da razão, começa a tratar mal seu amigo, e já não sabe mais quais são as reais intenções de cada ação ou reação dele, silencia, bloqueia, responde mal, ele percebe tudo. Ele também já começa a não fazer questão da sua amizade e reage de forma fria à assuntos que tangem vocês. Eventualmente vocês conversam, expõem suas dores, ninguém se entende e uma amizade morre. Da pior forma ainda, pois morreu de morte matada. Você matou sua amizade com seu amigo, ele matou a amizade que tinha com você e o pior de tudo, como vocês nunca chegaram de fato a conversar sobre os atritos que levaram a relação a se desgastar, ambos abertos, com empatia numa mão e perdão na outra, uma amizade morreu por nada. E todo mundo envolvido aqui perdeu.

    Não me leve a mal, as coisas precisam morrer. Mas as pessoas não precisam perder com a morte (a não ser a vida, né? #humor), muito menos morrerem depois das coisas. Situações em que todos perdem são frustrantes por não levarem a lugar nenhum. São um esforço direcionado à um monolito que nunca moverá. Mas, como esperado, existe uma opção, acredito eu, para as situações em que todos perdem. Uma solução bem simples, eu diria, que seria a tomada de consciência. Acredito que para situações como essa é importante que tomemos plena consciência da situação, pois uma área que não costumo muito ver sendo discutida é o quanto se perde nas situações em que todos perdem. Às vezes, a perda entre as partes pode ser desigual. Você pode estar ai pegando o seu tempo valioso, tudo que você de fato tem no mundo, e tomar ações completamente estúpidas com ele de forma a fazer com as outras pessoas com quem você interage também percam. Mas será se elas estão perdendo tanto quanto você? Será se o dispêndio do seu lado tá menor? Será se as partes que perdem junto com você estão perdendo da forma que você esperava? Ou elas lidam melhor com isso do que você? Será que a satisfação que você tem com a sua ação é duradoura ou -- ainda melhor -- construtiva?

Você tem certeza que só não tá perdendo o seu tempo?

    O amargo das situações em que todos perdem é que tanto as nossas ações quanto as consequências delas saem pela culatra. Quando você busca ferir -- ainda que inconscientemente -- alguém, você acaba se ferindo. Ao buscar chatear ao outro, você acaba mostrando o quão chateado você está. Uso minha experiência mesmo, pois nela vejo cada esforço mal direcionado partir do ator como bumerangue somente para retornar na cara de quem o lançou pra frente. E de tanto ser o agente principal quanto secundário das situações em que todos perdem, acabo as percebendo com certa facilidade. Com certo carinho, também. É somente estatístico dizer que todos participaremos em situações onde todos perdem eventualmente. O quanto perderemos já é um âmbito mais cinza para previsões. Mas ninguém tem culpa de estar numa situação dessas, pelo menos na medida em que por ventura caímos nelas, visto que somos seres emocionais, fadados à cair em tentação. Para você que engajou, se meteu ou foi metido numa situação em que todos perderam uma vez ou outra, no mínimo você é um aprendiz, no máximo um azarado. Com método e prática tudo se resolve. Agora, se você ativamente engaja em situações em que todos perdem, é crucial que você seja não só sua própria ruína mas principalmente a ruína de quem perde com você, porque se você tá perdendo cada vez mais e as outras partes perdendo cada vez menos, a lose-lose situação se descaracteriza, e no fim do dia

Você é só um perdedor fodido.

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domingo, 24 de outubro de 2021

Era de Movon



    

    Já era tarde do sábado, quase virando a zero hora, quando recebi a notícia que você havia saído de vez da minha casa. Era esperado, claro. Mas sei lá, mesmo sabendo o que você quis dizer, assim como Herbet, acho que não quis escutar. Na minha cabeça o que eu queria ter ouvido era melhor, sabe? E uma vez liberto pela confissão, o que me abalava se tornou somente luz que refletia ao tocar na minha pele.

    Infelizmente, a luz refletida também me cegou para a realidade brutal de que o que me abalava te dominou também. Talvez até mais, não sei. E não saber faz nascente das esmeraldas, da nascente surge um rio, e deste rio, cachoeira. Uma cachoeira de rancor que flui forte como se fosse ancestral, pois a dor deste parto é tão ancestral quanto a primeira tragédia do mundo, dado que você caiu pelas mãos de seu igual.

    Não importa os motivos, realmente achei que poderia nos consertar se Deus me concedesse perdão. Ele de bom grado o fez, visto que seu Senhor é justo. Mas o fez somente para me mostrar que não é só de perdão que se melhora o mundo. Tem muito querer envolvido, muita confiança e, obviamente, pouquíssimo tempo. O seu tempo acabou, e por conseguinte o meu também. É preciso saber muito para melhorar, e enquanto cruzo essa ave de argila branca que nós chamamos de pátria, percebo que de você não sei mais nada. Dizem que

A esperança é a última que te mata,

E agora que você saiu, acho justo tomar uma posição ativa para que me torne aquilo que prometi ser no reencontro. Mas por mim, não por você. Se um dia voltar, deixo esta carta aqui para que possa encontrá-la. E a partir de então me torno a esperança do que eu esperava de nós, pois se o inimigo do meu inimigo é meu amigo, a esperança da minha esperança é sua assassina.

E parti.

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