sábado, 10 de dezembro de 2016

Review e Análise de Black Mirror s01e01

Essa moto é muito Black Mirror.



Então, eu fiz o maior esforço pra escrever isso para uma matéria da faculdade ai eu gostei e pô resolvi colocar aqui pq né. Esse texto que se segue aqui está dividido em 1 - Sinopse do episódio s01e01 de Black Mirror 2 - uma análise da tecnologia e comunicação relatada no episódio 3 - propósitos artísticos de um personagem e 4 - propósitos psicológicos de um personagem. Outra coisa importante: eu não revisei o texto nem pra mandar pra professora da matéria então prfvr não exijam tratamento especial ok?? Beijos <3 br="">



Black Mirror é uma série britânica de televisão criada por Charlie Brooker que, através de uma sequência antológica, ou seja, não sequencial, extrapola as possíveis futuras consequências que o uso atual da tecnologia trará para a sociedade.¹

Sinopse do Episódio
O primeiro episódio da série relata a uma situação fictícia onde, no meio da madrugada, o Primeiro Ministro da Inglaterra é convocado por questões de segurança da princesa mais popular da Coroa. Em seu gabinete, o Primeiro Ministro descobre, através de um vídeo protagonizado pela princesa, que ela foi sequestrada por um anônimo. Ele promete o retorno da princesa sob uma condição: a de que o primeiro ministro faça sexo com um porco ao vivo, em todas as emissoras britânicas, ao final da tarde. Como estratégia de contenção da informação, o Primeiro Ministro ordena o máximo de sigilo, e descobre que a fonte do vídeo é o Youtube, e que cerca de cinquenta mil pessoas foram expostas à informação antes mesmo do amanhecer.
Em seguida observamos algumas reações civis, desacreditadas, e do editorial de uma emissora de televisão discutindo se devem desobedecer o pedido estatal de não cobrir a notícia, onde uma jornalista expõe a demanda das pessoas na internet por uma confirmação das informações que estão circulando na web. E então, ao perceberem que uma série de emissoras (não necessariamente britânicas) já começaram suas respectivas coberturas sobre o ocorrido, começam a se esquematizar para cobrir o sequestro da princesa. Deste ponto partimos para os assessores do Primeiro Ministro percebendo que não possuem mais nenhum tipo de vantagem ou recurso midiático, e decidem tomar medidas para proteger tanto os interesses da princesa, da população e do Primeiro Ministro, arquitetando um plano de, através do CGI, transmitir um ator pornô transando com o porco e se passando pelo Primeiro Ministro. Até este momento do episódio temos a opinião pública a favor do Primeiro Ministro não acatar as demandas do sequestrador.
O ator pornô coletado pelo Estado é reconhecido e fotografado por alguém que publica a foto no Twitter. E essa informação é recebida pelo sequestrador, que manda para a emissora de televisão que acompanhamos através da narrativa, não só o dedo decepado da princesa como o vídeo do momento em que o sequestrador o corta. Agora que o governo foi pego tentando contornar as demandas, ou seja, que o Primeiro Ministro (que não sabia do plano do ator pornô) colocou a vida da princesa em risco, a população demanda que ele acate as exigências do sequestrador para que a princesa retorne salva.
Ao mesmo tempo que o plano do ator pornô estava sendo realizado, uma equipe tática estava em uma certa localização, identificada pela inteligência britânica como o local onde o sequestrador fez o upload do vídeo. Localização que foi assumida como o local de operações. A repórter da emissora de televisão que acompanhamos no episódio consegue, através de imagens privilegiadas (o famigerado nudes), o endereço deste local, e o invade um pouco antes do Primeiro Ministro ordenar que a equipe tática invada o local. Após eles descobrirem que o local é inútil, a repórter é descoberta e eventualmente alvejada, mas não assassinada.
Agora, sem nenhuma opção ou plano B, a assessoria do Primeiro Ministro não vê alternativa além de acatar literalmente as exigências do sequestrador. E tanto o Primeiro Ministro, quanto a Inglaterra e o mundo se preparam para um dos acontecimentos mais relevantes da história britânica. Um anúncio de que ter posse de qualquer imagem do Primeiro Ministro transando com o porco é configuração de crime, o que não impede as pessoas de gravarem , como o episódio nos mostra. O Primeiro Ministro é instruído por sua assessora a agir de maneira apropriada para mostrar sofrimento e cumprir as exigências do sequestrador, e recebe viagra e estímulos audiovisuais para performar o ato até ejacular. Então ele se depara com o porco, que está comendo sem parar, faz uma pequena fala, ressaltando esperança e piedade, antes de começar a penetrar o animal.
Enquanto percebemos as pessoas agregadas em torno da televisão assistindo esse “momento histórico”, vemos a princesa numa ponte, andando desnorteada na rua. Ao voltar para as pessoas que estão assistindo à cena explícita, percebemos uma mudança drástica na postura de todos os telespectadores. Agora, ao contrário do que exposto antes da transmissão começar, eles estão com feições fechadas, tristes, pesadas e sofridas. A princesa, desacordada na ponte, é socorrida por um policial enquanto o Primeiro Ministro se encontra debruçado na privada, vomitando após ejacular dentro do porco -- cena esta que não é mostrada, mas nas exigências do sequestrador estavam inclusas que o Primeiro Ministro só poderia terminar o ato sexual com o porco após ejacular. A assessora é informada que a princesa fora encontrada e que, para a surpresa dela, câmeras de segurança captaram imagens da princesa perambulando na rua trinta minutos antes da transmissão do Primeiro Ministro com o porco começar. Ela pede para que esta parte seja apagada do relatório, antes de relatar ao Primeiro Ministro que a princesa foi encontrada e está segura. O primeiro ministro então recebe um telefonema de sua esposa, o qual ele decide ignorar, assim como todos os telefonemas dela desde o momento que ficou claro de que ele teria de fazer sexo com o porco ao vivo na televisão.
Somos transportados para o aniversário de um ano do sequestro da princesa, onde vemos uma aparição do Primeiro Ministro e sua esposa, relaxados e confortáveis, assim como imagens da princesa em sua primeira aparição após a gravidez. Somos informados que o sequestrador era um artista premiado, cujo seu trabalho -- o sequestro e coerção -- foram identificados por um crítico de arte como a maior obra do século XXI, exibida para 1,3 milhões de espectadores. Aparentemente, o acontecimento não abalou a vida do Primeiro Ministro, que se mostra leve e popular na opinião pública, mas essa sensação logo passa ao vermos o Primeiro Ministro e sua esposa entrarem em casa, momento em que o marido implora pela atenção de sua esposa, que o nega prontamente, sem nenhuma palavra ou olhar expressivo.

Manipulação e Imersão na Convergência das Mídias
    Um dos pontos que me saltaram os olhos foi como o núcleo político, ou governamental do episódio foi cada vez mais coagido a agir de acordo com a pressão social imposta. Num primeiro momento, ele foi rapidamente forçados a reconhecer que aquela situação de refém era não somente real, mas também globalmente pública. Em seguida, numa tentativa de enganar o sequestrador, foi brutalmente exposto para a mídia e rechaçado pela opinião pública, surgindo daqui tanto a ordem de invadir o suposto local do sequestrador quanto a confirmação de que não teria jeito a não ser acatar as ordens dele. Outra coisa que a pressão social influenciou, na mesma medida que no núcleo governamental, foram as mídias -- tendo aqui, como exemplo mais expressivo, a NHK, emissora que acompanhamos ao longo do episódio. Não era intenção de nenhuma emissora ou editorial desacatar a autoridade estatal, mas a pressão social foi tanta que eles não tiveram escolha -- e por “não tiveram escolha” quero dizer que eles não podiam deixar os cliques irem para as empresas concorrentes.
Toda essa dinâmica de pressão da população foi expressada através das redes sociais, por permear majoritariamente um campo virtual, essa população não era -- ou não precisava ser -- britânica ou localizada na Inglaterra. A internet e as redes sociais claramente agiram como um unificador de intenções similares fazendo com que a força das opiniões e desejos individuais tomassem proporções maiores que a soma de suas partes -- o que por si é o próprio conceito de sociedade ou de social.
Outro aspecto bastante interessante no que tange as dinâmicas midiáticas é o movimento que chamo de confluência das mídias. Veja bem, todo o rumor, quanto o vídeo que provavam que a princesa fora sequestrada estavam circulando por um bom tempo na internet antes de serem oficializados pelas emissoras de televisão. O que podemos analisar neste relato é que, mesmo a prova do sequestro da princesa estando na internet, de nada ela serviu como validação do fato até a televisão dizer que, de fato, a princesa havia sido sequestrada e que, de fato, o vídeo era prova empírica disso. À esse tipo de dinâmica que dou o nome de confluência das mídias, no sentido de que para que haja penetração e influência nas massas, uma mídia sozinha não consegue mais fazer o papel por si só, sendo necessária uma interseção de mídias para confirmar ou validar uma dada informação. É preciso uma segunda tela.
Por fim, atrelada à confluência das mídias, aponto e proponho aprofundar o debate acerca de um momento, dos últimos minutos do episódio, antes do Primeiro Ministro e sua esposa adentrarem a casa, em que o repórter, que serve de narrador dos fatos que se tomam um ano após o sequestro da princesa, diz que todos vivemos aquela experiência -- no caso, a do sequestro. Esse é um ponto importante da confluência das mídias, onde a imersão nas telas proporciona uma experiência pessoal para quem se envolve nas informações, discussões e engajamentos sociais que se tomam em situação de alarde. Para ilustrar esse ponto, localizá-lo temporalmente e geograficamente, tenho, além da própria progressão lógica do episódio ( que em tese, se passa em local e época definida: Londres do século XXI), a tragédia envolvendo o time da Chapecoense em novembro-dezembro de 2016. Observo neste momento histórico uma verdadeira dinâmica de confluência das mídias, onde temos a imprensa como relatora da vida e impacto do time e do acidente nos mais diversos cenários -- do mais particular ao mais global -- e a televisão, que faz o meio termo entre o que a imprensa faz, ou seja, relatar o que acontece, e a internet, que engaja discussões e ações, virtuais ou reais, em níveis comunitários e sociais. A televisão neste caso opera como terceiro partido na confluência das mídias, interelacionando informação e comunicação.

Do Espetáculo: drama, comédia e tragédia
Um ponto dúbio do episódio é o que concerne as motivações do sequestrador. Afinal, qual era o propósito por trás do sequestro? Por trás da humilhação sofrida pelo Primeiro Ministro? Acredito que a resposta fique entre um possível statement acerca dos meios de comunicação e aparelhos midiáticos e o simples deboche artístico levado às últimas consequências. Isso claramente não poderemos saber por ele, já que o personagem se matou no meio da transmissão do Primeiro Ministro com o porco. Porém, podemos fazer um exercício de reflexão acerca de alguns pontos: o drama, a comédia e a tragédia do espetáculo.
O drama é o primeiro “gênero” que o sequestro toma para si. Afinal, temos literalmente uma princesa em perigo e um cavaleiro mais do que nobre que foi imputado de salvá-la das garras do malfeitor. Este momento acredito que tenha sido projetado para engajar a sociedade a acompanhar o espetáculo. Afinal, esta é uma história notoriamente emocionante que com certeza iria satisfazer os mais diversos ânimos.
A coisa, entretanto, começa a tomar proporções mais bizarras quando não só o núcleo governamental, quanto a sociedade toma consciência de que o Primeiro Ministro não tem para onde fugir. Ele vai ter que transar com o porco. E imagem de uma figura tão nobre, correta e limpa quanto o líder do executivo da Inglaterra penetrando um porco é,  não só em gostos pessoais mas em teoria do humor, uma situação cômica. Aqui vemos que o  interesse das massas de participar -- como participaria um voyeur -- do ato obsceno do Primeiro Ministro é motivado pelo teor humorístico por trás da situação. Interesse este que muda drasticamente a partir do momento que o espetáculo começa.
Na medida que o Primeiro Ministro penetra no porco -- e ele faz isso por mais ou menos uma hora -- as pessoas, por mais que vidradas no que a tela mostra, começam a sentir as piores sensações possíveis. Vemos no episódio uma série de posicionamentos tomados pelos personagens que claramente sugerem alguma empatia pelo sofrimento mostrado pelo Primeiro Ministro, fazendo com que os telespectadores passem a perceber o quão bizarra é aquela situação, talvez até mesmo fazendo-os perceber o quão igualmente bizzaro é o fato de que, apenas minutos antes desta tomada de consciência, eles estavam todos juntos encarando a transmissão como algo festivo a ponto de ter que ser compartilhado pessoalmente em comunidade. A tragédia se estende ainda mais para nós em dois momentos. No primeiro, ela aparece intercalada com a comédia, quando passamos a conhecer o quão inútil foi o ato heróico do Primeiro Ministro. O segundo, mais drástico e triste, quando conhecemos a vida particular do Primeiro Ministro um ano após o sequestro, em que vemos um matrimônio completamente devastado.

Do Suicídio
O ponto mais enigmático de toda essa trama é o suicídio do sequestrador. Novamente podemos supor coisas como “ele não queria sofrer as consequências de seus atos” ou “ele simplesmente não via motivos para continuar vivendo”, mas essas resoluções não parecem partir de uma análise compreensiva dos fatos disponíveis. Outra coisa que não se pode atestar solidamente é a tese de que o suicídio era premeditado, pois novamente não parte de uma análise compreensiva.
Partindo dos fatos de que o sequestrador não atentou à vida de ninguém a não ser ele mesmo -- e afirmo isso com veemência, já que o máximo que ele fez para com a integridade física de outra pessoa foi nocaute por químicos -- podemos seguramente endossar a tese de que ele não possuía motivações violentas. Visto que ele mesmo invalidou as próprias condições de liberdade da princesa sequestrada, podemos também atestar seguramente que ele queria, de alguma forma, provar um argumento. Ainda que este argumento seja uma incógnita.
Acredito ser uma análise plausível a de que ele, como artista, previu uma situação social com a qual ele não poderia conviver nem confrontar, e diante dessa incerteza, elaborou uma série de experimentos que pudessem comprovar sua futurologia. Uma vez confirmada, ele teve total consciência de que, em seus termos, o suicídio era necessário para que sua vida possuísse significado não para os outros, mas para ele próprio.
Referências
Wortham, Jenna (30 de janeiro de 2015). "'Black Mirror' and the Horrors and Delights of Technology". New York Times. Acessado em 9 de dezembro de 2016.


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